SUS: Entre o Orgulho do Discurso e a Frustração da Fila de Espera

17/03/2026

O Sistema Único de Saúde (SUS) é, sem dúvida, o maior patrimônio social do Brasil. Recentemente, vimos o governo brasileiro projetar essa força ao mundo, oferecendo assistência e insumos de diálise para vítimas de conflitos internacionais. É um gesto nobre que nos enche de orgulho, mas que também traz à tona uma pergunta inevitável: por que as "portas abertas" para o mundo parecem fechadas para tantos brasileiros?.

A Contradição da Diálise no Brasil

Enquanto o Brasil exerce sua diplomacia humanitária, vivemos uma crise humanitária invisível dentro de nossas fronteiras. Segundo dados da Sociedade Brasileira de Nefrologia (maio de 2025), mais de mil brasileiros estavam "presos" em leitos de hospitais públicos, com alta médica concedida, apenas aguardando uma vaga em uma clínica de diálise.

Esses pacientes não esperam por uma tecnologia experimental ou um transplante raríssimo. Eles esperam pelo básico: o acesso a um tratamento contínuo e essencial para continuar vivendo.

O Custo da Sobrevivência vs. O Repasse do Governo

A conta não fecha, e quem paga o preço é o paciente. Um estudo da consultoria Planisa revelou que o custo operacional de uma sessão de hemodiálise chega a R$ 393. No entanto, o SUS remunera apenas R$ 240.

Essa defasagem de mais de 38% sufoca as clínicas, impede a abertura de novas vagas e resulta no fechamento de unidades. O reflexo disso é geográfico e cruel:

  • No Sudeste, temos 1.019 pacientes em diálise por milhão de habitantes.

  • No Norte, esse número cai para 567.

Essa diferença não significa que há menos doentes no Norte, mas sim que o sistema é mais frágil e muitos morrem antes mesmo de conseguir um diagnóstico ou a primeira sessão de tratamento.

"O SUS não pode ser apenas um cartão-postal diplomático; ele é a linha tênue entre a vida e a morte para milhões de brasileiros."

Solidariedade Começa em Casa

A FENAPAR e as associações de pacientes reforçam: oferecer o SUS ao mundo é louvável, mas oferecê-lo com dignidade aos brasileiros é inegociável. Cerca de 79% dos pacientes em diálise no Brasil dependem exclusivamente do SUS. Para eles, a universalidade da saúde não pode ser apenas um conceito teórico em discursos oficiais; ela precisa ser uma vaga garantida, um transporte eficiente e um tratamento de qualidade.

É Hora de Agir

Para honrar o legado do SUS, precisamos de mais do que retórica. É urgente:

  1. Financiamento Adequado: Reajuste imediato da tabela de repasses para cobrir os custos reais.

  2. Planejamento Orçamentário: Decisões concretas que permitam a expansão da rede assistencial.

  3. Equidade Regional: Reduzir as filas e o tempo de espera nas regiões mais desassistidas.

A crise que acontece nos hospitais brasileiros todos os dias merece a mesma comoção e urgência das crises internacionais. A saúde pública de verdade não admite que nenhum brasileiro seja deixado para trás.